te ver no inverno
é como verter pela metade
meus pés afundados
na areia, às cinco a luz
é pouca: hoje é terça de tarde
e não me sinto de férias
nesse verão ao avesso
te dobro um barquinho
pra navegar no mar
laura ainda não estava
do lado de fora
para ouvir nossas conversas
com a barriga, os primos
amontoados em torno
da cama esperando
as semanas finais: laura
estava bem viva
antes mesmo de querer
ser um prédio (assim não teria
que ir à escola), antes mesmo
de perceber que atenas
estava em obras justo quando laura
foi lá visitar
saber que estava para chegar
era como se já estivesse lá
alguma coisa grita
nesse quarto que bóia
em outro oceano: meu caderninho azul
já chega ao fim (nunca
terminei um tão rápido
as páginas coloridas
com frases para mim
mesma). essa gente não entende
pra que servem os domingos
nublados – lá em casa
as janelas ficam abertas
para deixar o cinza à vontade
meu pai diz pode colocar
à mesa, eu dobro guardanapos
mamãe espalha pratos, marina
escolhe talheres, a tv murmura
baixinho: o almoço chega da cozinha
numa panela muito quente
e a grande surpresa ao levantar
a tampa – as tardes de domingo
são pequenas jóias
levei para passear
o seu caderno de desenhos
abri a janela do ônibus e deixei
o vento brincar
com as páginas
era muito cedo na praça
do comércio: descemos
do bairro alto, o céu
de um azul que não se pinta
todo costurado com a linha
dos comboios, os trilhos dançando
debaixo dos sapatos. nossos olhos
sonolentos como pequenos
pássaros descobriam cafés, uma loja de chá
moças bonitas que cruzam a cidade
de ponta a ponta e não se espantam
com o azul de lisboa, o perfume das ruas
a distância de casa
não sei qual força mantém
as montanhas firmes
(talvez se olharmos
com muita atenção é capaz
de flagrarmos
uma leve respiração
um suspiro)
só sei que à noite,
quando o escuro
não se preocupa em contornar
os morros, esses gigantes
se mexem um dedinho
para o lado – as pedras
também têm seus caprichos